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A tentação da perfeição

29 de setembro de 2019Josué Campanhã

Este artigo é parte de uma série do Summit 2019 com foco em competências, onde apresentamos conteúdos atuais, executáveis e inspiradores de liderança, gerados pelos palestrantes do Summit deste ano.  

Que privilégio receber Jo Saxton no palco do Summit! Ela é a fundadora do Ezer Collective, uma iniciativa que equipa e investe em líderes femininas. Essa entrevista, originalmente publicada por “A Sista’s Journey, mostra sua história e alguns temas chaves de liderança em seu trabalho. 

E: Jo, você tem uma história bem interessante. Você tem dado palestras por todo o país e se tornou conhecida como “britânica nigeriana”. Você poderia compartilhar um pouco dessa história e como seu nome mudou de Modupe para Jo? 

Jo Saxton: Eu me considero britânica nigeriana porque as duas nacionalidades desempenham um papel fundamental em minha identidade. Sou uma nigeriana iorubá e meus pais se mudaram para a Inglaterra em 1960. Muitos dos meus anos de formação foram passados em uma comunidade expressiva de nigerianos em Londres. Comida nigeriana, sons nigerianos, práticas culturais nigerianas: esse era meu padrão.  

No entanto, Londres é a minha cidade natal e é uma cidade diversa e cosmopolita. Foi onde cresci, fiz amigos, foi pelos garotos de lá que me apaixonei … andava por suas ruas e amava. Sinto uma conexão profunda com Londres, porque também me moldou. A Londres na qual eu cresci é muito mais eclética do que as imagens da Inglaterra capturadas em shows como Downtown Abby ou The Crown.  

Quanto aos meus nomes, eles nunca mudaram. Modupe e Jo (diminutivo de Joannah) são meus nomes de nascimento (dentre outros). Em minha família era comum ser chamada por ambos os nomes e nunca havia confusão. Modupe transmite gratidão, significando “eu agradeço” e Joannah significa “Deus é misericordioso”. Eu divido esse nome com uma das mulheres que viajou com Jesus e seus discípulos em Lucas 8, então nunca o considerei um nome inglês ou europeu.  

Eu acredito que nossas palavras são poderosas. Os nomes têm peso na cultura nigeriana então eu amo o que ambos os nomes significam e dizem sobre a minha vida. Eu sempre pensei que Modupe seria o nome mais difícil de pronunciar, mas quando me mudei para os EUA e escrevi Joannah, com frequência ouvia ser pronunciado Jonah – e Jonah é um nome lindo, mas não é o meu!   

E: Em seu livro “The dream of you, você escreveu sobre resistir à tentação do perfeccionismo. Em um determinado ponto você até faz uma carta de rompimento à “necessidade de superação”. Ao mesmo tempo as pessoas podem olhar para sua vida e dizer: “mas parece que ela está conquistando muitas coisas”. Como você concilia essa auto consciência com o propósito ou o chamado que Deus lhe deu? 

Jo Saxton: Para mim, a necessidade de superação não se trata apenas do que fazemos ou mesmo conquistamosÉ sobre precisar ter uma performance sempre superior e fazer muito mais do que o necessário para ganhar aprovação ou reconhecimento de outros – ou para evitar ser ignorado e reprovado por outros. Às vezes isso ocorre devido aos sistemas nos quais vivemos. É sobre o necessário passar a ser uma necessidade vital 

Como toda pessoa negra eu conheço e cresci com o” discurso. No início dos anos 80, enquanto eu crescia, nigerianos e outros africanos eram vistos, às vezes, como lentos, inadequados e incapazes – para dizer o mínimoO discurso que me passaram, em resumo, foi: para ter uma chance de ser bem-sucedida na sociedade, eu precisaria ser ao menos três vezes melhor que os meus colegas por ser negra e mulher. E como a discriminação era uma realidade consistente, esse discurso se tornou meu mantra.       

Eu não estava tentando competir contra ninguém. Eu estava tentando  lutando – para não ficar para trás. Estava tentando lidar com todas as pequenas formas de injustiças que vivi quando fui seguida em supermercados, quando as pessoas conversavam comigo lentamente como se eu não fosse capaz de entendê-las, quando me rotulavam de preguiçosa porque eu era pobre, e quando ficavam surpresas com o fato de eu ser articulada, porque deduziam que eu não seria. 

Dito isto, viver nesse estado permanente de precisar provar seu valor, por décadas, tem seu preço – em seu corpo, em sua mente. Não fomos projetados para viver dessa maneira. Além disso, Deus diz que eu fui feita de maneira tremenda e maravilhosa. Mas em que versão devo acreditar e, o que significa viver livremente se, 40 anos depois, ainda ouço declarações prejudiciais e abertamente intolerantes sendo ditas sobre os africanos? 

Para ser honesta, eu ainda estou me encontrando e aprendendo na caminhada. Perfeccionismo e necessidade de superação podem ser uma dupla tóxica e viciante, quando atuam por muito tempo. Então, embora eu deva admitir que isso tenha me ajudado até aqui, eu sei que isso não pode me levar aonde me sinto conduzida a ir.  

Por enquanto, decidi que não preciso ter medo ou me desculpar pelo meu valor e meus dons. Percebi que Deus tem mais para mim, além de provar que eu tenho valor para ser convidada a me assentar à mesa dos outros. Eu não preciso me esgotar buscando esse objetivo; N’Ele posso construir minhas próprias mesas. E por fim, sou lembrada de que pertenço a Ele, portanto, fidelidade ao Seu chamado para a minha vida é minha principal definição de sucesso.  

Em algumas temporadas isso (o sucesso) se mostrou na forma de muitos papéis e conquistas. Em outras, essas coisas estiveram completamente ocultas. Eu acho que vou descobrir o que essa divisão significa nos anos que estão por vir.  

E: Em seu livro você encoraja os leitores com a passagem de Mateus 11: 28-30, sobre aceitar o jugo de Jesus, que é fácil de suportar. Para muitas pessoas esse é um conceito difícil de assimilar… o que essa parte da Escritura significa para você? 

Jo Saxton: Essa passagem me deu vida. Esta é a palavra de Deus para mim naqueles dias em que eu sinto que exagerei ou fui insuficiente, naqueles dias em que o perfeccionismo e o empenho me deixaram no chão. Quando todos os “deveriam” e “poderiam” esgotaram minha paciência e esvaziaram minha esperança, sou lembrada que Jesus andou entre um povo que foi quebrado pela ocupação e opressão romanas, sufocadas pelas expectativas religiosas vigentes… que pressão diária para se viver! No entanto, é nesse contexto que Jesus oferece um convite transformador (adoro a leitura desse texto por Eugene Peterson): 

“Você está cansado? Esgotado? Queimado com a religião? Venha até mim. Venha comigo e você recuperará sua vida. Vou mostrar como se descansa de verdade. Ande comigo e trabalhe comigo – observe como faço isso. Aprenda os ritmos não forçados da graça. Não colocarei nada pesado ou inapropriado em você. Me faça companhia e você aprenderá a viver de maneira livre e leve.” 

É essa linha que me mantém perto: Venha até mim. Venha comigo e você recuperará sua vida. Eu nunca me canso dessas palavras. Nessas palavras, encontro paz, segurança e um convite para recuperar a vida para qual fui feita. Não para o mundo, ou para o meu fracasso ou para o que o inimigo me reduziu a viver. E é um convite que me cumprimenta todos os dias. E é meu objetivo que todos os dias eu responda a Jesus com o meu “Sim” e siga aonde quer que Ele me leve. Ele é o lugar mais inspirador para se estar.

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